16/03/2008

afinal, havia o Nada

POBRE DE TUDO, excepto de o saber,
Volvo atrás para ler
Aquele anúncio à porta da morada
Do regedor do Nada
Onde se diz que alguém perdeu na rua
Uma alma que era sua,
E quem a achasse que a trouxesse ali
Onde o anúncio vi.
Encontrei-a, escondia-a, não a dei
Por achada ante a lei.
Mas sofro a dor de não poder saber
Dela o que hei-de fazer,
Que ter uma alma a mais faz pena e dó:
São dois a um estar só.

Fernando Pessoa, 1934

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