19/03/2008

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Eis senão quando, o inimaginável acontece: salta-nos pela janela um fulano de pistola apontada. Era moço dos seus vinte e poucos, arruivado, barbicha e óculos redondos. Calado, fazia dançar o cano da arma, em movimentos laterais, abarcando o grupo.

Cagaço geral, bem entendido. A louraça que ajudava à mesa deixou tombar uma bandeja com taças de caviar vermelho do Cáspio. Uma senhora madrinha superou-a: tombou ela própria, na queda arrastou a toalha, um cagaçal de porcelanas e cristais escaqueirando-se no chão de mármore.

Do meu ponto de vista, o preocupante era o nervosismo do rapaz. A pistola tremelicava nas mãos deles. Melhor que ninguém, o senhor Inspector sabe como os salteadores assustados se tornam perigosos.

Mantive o sangue frio. “Calma, amigo”, disse-lhe. “Não é preciso entrar em disparates”. Acto contínuo, saquei da carteira e coloquei-a sobre o tampo da mesa. “Aí tem”. Pensando melhor, voltei atrás: “vou tirar os documentos. A si não interessam e poupa-me a chatice das burocracias.” Assim, nas calmas.

Todos me imitaram o gesto, inclusive na preocupação de subtrair os documentos. E lembro-me que a minha mãe, mulher decidida, saí a ela, arrancou do pescoço o faiscante colar mas teve a decência de prevenir o sacaninha: “É pechisbeque, não vale o incómodo de o avaliar no prego.” Finalmente, o bichano miou. Mantinha a arma em posição de disparo e disse: “Não levo nada dessas merdas” (…) Quero o vestido da noiva.”

(…)
Corri a entrepor-me enquanto a mãe arrancava um cortinado para que descesse o pano sobre o setripe. E só ela, a Gilberta, passou pelo aperto sem desarmar o sorriso. Grande noiva, direi sempre.

Mas o patife arrancou, de motoreta, encontrámos abandonada na relva do jardim a arma do crime: um irónico brinquedo de plástico. Mas a história, senhor Inspector, só teve o epílogo quinze dias depois.

Quinze dias depois, manhã cedo, aparece no portal da moradia um pacote volumoso. Abre-se e o que sai? O vestindo da noiva. Limpo, passado a ferro e acompanhado por um rectângulo de cartolina com a palavra: Obrigado.

Soubemos, desse modo, que o larápio se apressara a concretizar o seu plano matrimonial. Nunca mais o vi. Esse apresentou-se de cara descoberta, reconheço-o se passar por ele em qualquer esquina da cidade ou do mundo. Então pergunto-lhe: “A esposa como vai? E o vestido, serviu-lhe?”.

Mário Zambujal, Primeiro As Senhoras.

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