19/04/2008

P (ingo) e D (oce)


O comércio actual (dizia-me o doutor Engrácio, sempre estudioso das modernidades) tem destas atitudes estranhas: uns dão-nos sacos de plástico à fartança, Leve os que quiser, dão sempre jeito, lá para casa também, se precisar; outros, agora convictos de veros ecologistas, dão-nos um saco maior, natural, consumível, isto mais aquilo, e nós, em troca, damos-lhes dois cêntimos, já em euros.
Fui ao Pingo Doce já a tarde tombava sobre a cidade. À pressa, passo corrido, apenas para comprar um quilo de açúcar amarelo, um do branco, meio quilo de sal grosso e, porque lá me lembrei, quinhentos gramas de massa esparguete.
Sucedeu-me pagar atrás de uma menina com ar bronzeado, suavemente reboliça da cintura, em descendo, e com um sorriso querido, disfarçando uns dentes desalinhados, mesmo assim alvos. Olhava-me com ternura, pelo menos – reparei. Solvia, em acto sereno e compenetrado, dois pacotes de arroz carolino e um pão biológico, além dos obrigatórios dois cêntimos para fazer seu o saquito de plástico. Sim, aquilo ali é plástico na mesma, como os outros que são completamente de graça! O produto boiava nos fundos do meio de transporte, mas, todos a compreendemos, nenhum jeito lhe daria percorrer a rua de comprar penduradas na mão, como se, em lugar de carolino e biológico, erguesse algum casaco de noite.
A primeira pergunta que a Caixa me dirigiu (nem boa-tarde, nem boa-noite, nem está um tempo que tem vindo a arrefecer, ultimamente, mas tivemos um verão muito agradável, graças a Deus…) foi esta, muito singela: Quer saco?
Pois, que remédio! Como havia de levar as coisas?
A caixa não me respondeu, mas o ligeiro toque de ombros, iluminado pelo relance do olhar, disse-me, com precisão doutoral: aqui não temos sacos de plástico para, de modo gratuito e aleatório, oferecer a todo e qualquer freguês, permitindo e contribuindo, mesmo que indirectamente, para que a terra sofra as respectivas consequências. O freguês sabe com o que conta, pois temos uma política transparente, como desejamos que sejam as correntes dos rios e as águas que brotam das fontes.
A menina, ainda a recompor um dos arrozes nos fundilhos, interrompeu o silêncio pesado e lançou uma proposta temerária: que devíamos ir para zona semelhante e o seu saco, com gosto, acolheitaria as minhas aquisições.

Vivemos num Mundo em que os condóminos se apartam, às vezes mesmo nas reuniões anuais; num Mundo em que damos três passos mais rápidos para não cumprimentar o vizinho do lado; num Mundo em que ajudar um cego ou atravessar uma velhinha já não é o que era dantes. E foi neste Mundo, assim agreste e frio, muito mais cheio de cotovelos e pisadelas que de abraços e lembranças (ainda que repleto de sacos ecológicos, é natural) que a menina avançou a oferta. Em nome de que monstro podia eu renegar a esperança? Não é de pequenos passos que se constrói um caminho novo? Boquiaberto, disse mas; atormentada, questionou-me a Caixa se anulava os dois cêntimos. Sim, mas; Não, mas sim! E anulou, ao mesmo tempo que, de sorrisinhos escondidos, olhando, calados, eu e a menina lhe dizíamos: o liberalismo e sã concorrência dos mercados têm este maravilhoso dom de permitir que a última palavra, a derradeira decisão sejam sempre do ilustre consumidor; e mesmo quando parece que a decisão final se funda num gesto solidário, filho primeiro do comunitarismo, meio-irmão (da parte da mãe, bem se vê) do próprio comunismo, ainda é a liberdade liberal que permite a solução final, resguardando a possibilidade da desistência, justamente porque permitida pela concorrência.
Meti os meus pacotes no pacotão dela, oferecendo-me para que ficassem no fundo, cautelarmente a suportar o peso das suas aquisições. Teimou que, ressalvado o pão, o mais era arroz e bem suportaria as minhas doçuras, o sal e a massa esparguete. Paguei e insisti – era o mínimo – para que a meu cargo ficasse o transporte, que fosse a minha força, mesmo esbatida na ternura da admiração, a lutar contra a gravidade.
Seguimos caminho, irmanados. Como se supunha, os nossos apartamentos não se distanciavam. Fomos andando. Reparei melhor, na ajuda que já davam os candeeiros da avenida, que ela, afinal, tinha mais idade do que para ser minha filha, por muito precoce que me aventurasse em eventuais envolvimentos. E tinha um belo ar, assim, caminhando ao meu lado, deixando-me espreitar as curvas que a ganga realçava e a respiração que o peito não continha. Uns olhos castanhos, muito vivos, e aquele sorriso teimoso. Disse-lhe, ainda que com palavras, que não tinha palavras para lhe agradecer e que o seu gesto tinha a potencialidade de transformar um descrente. Ela disse que me conhecia, mas só de vista; que o que fez, por outro faria, se tivesse a certeza, como agora tinha, que era um outro simpático e agradável.
A cada dois passos, parávamos, esquecidos da pressa e da hora do jantar. Descobri-lhe a idade (nada mau) e o descompromisso (melhor assim) e, em cada acrescento, sobrava-me a ideia da prendinha de Natal ter chegado mais cedo, num Novembro ainda solarengo. Acho que é humano (no simples sentido masculino, pelo menos) que se ganhe confiança quando no-la dão de modo tão disponível. Era o caso. Quando ela disse que terminara psicologia há três anos e era tempo de se firmar na vida, eu ia deduzindo a singeleza da realidade: uma mulher que sabe o que quer e que me quis conhecer; que, num pequeno gesto, me prendeu o interesse, porque está interessada. Leva-me a casa e eu vou. Este é o primeiro dia de muitos, talvez de uma vida inteira. Imaginei mais coisas, logo ali. Parecia-me que o olhar dela permanecia carente e até o corpo estava fustigado por uma qualquer ânsia. Enfim, pensei que já nem nos despediríamos.
Mas não acertei. Cedeu-me o saco com insistência e quando me preparava para a pergunta fatal (do tipo telemóvel, é mesmo aqui que mora, quando jantamos…) adiantou-se e anulou qualquer outra continuação: gostava de conhecer pessoas, atenta a sua profissão, nada mais que isso! Mas, disse-lhe eu; Mas, voltei a repetir-lhe. Mas e mas, dando a entender que construíra uma promessa tão grande para agora se dissipar em menos que um adeus.
Era irreversível, acrescentou-me. Já foi bom o que aconteceu, concluiu-me. Parecia-me o Natal, supliquei-lhe. E era, foi um gesto cristão, terminou-me. Só lhe pedi o nome, desalentado. Cristiana, bem se vê.
Um nome Doce, despedi-me. Mas só um Pingo, gritou, já longe.

1 comentário:

Anónimo disse...

Esta ficou-lhe na memória...
Que tal arriscar novamente, quem sabe, para a próxima, a seguir ao Pingo pode vir o Doce...
Se é que ainda falta algum tempo para o Natal...