(continuação)
O Figueiredo estava à minha direita, como sempre: eu, macrogestão do projecto; ele, vias de jurisdicidade e cautelas legais. A gravata azul-escuro, salpicada de pintinhas brancas minúsculas, já a tinha visto noutras oportunidades. Ou era ideia minha, talvez uma demasiadamente idêntica. Ficava bem no fato quase preto, um cinzento-escuro sentido, sem quebra de aprumo, sem nenhuma veleidade de sobranceria, dúvida que todos tínhamos acerca da percepção estética da Directoria Geral.
O Figueiredo tomou a palavra, pigarreou despercebidamente e avançou com a proposta de se passar ao último ponto, justamente Perspectivas futuras para a implementação acelerada da sociedade empresarial de comunicação. Falara antes dos quatro que se encontravam à sua esquerda e que, atenta essa mesma ordem, o deveriam anteceder no discurso. Daí, ainda assim, nada de mal ao mundo: a questão, aliás, afigurava-se mais processual que de substância.
Tudo bem. Só que, feita a sugestão, nada acrescentara a seu favor, nada dissera que a fundasse. Por instantes, a mudez inundou a sala oval onde, ao fundo, o fundador olhava displicente, e todos, todos e cada um por si, lhe concedemos um aforro de segundos.
Nada!
E o D.G. – olhos demasiadamente abertos, parecia nem estar por cá – disse: «E?»
E nada!
Com voz mais forte, ligeiramente regressado, acrescentou, «E, doutor Figueiredo de Sampaio?»
«E nada», respondeu o proponente. Assim inopinado, como quem diz, Altera-se a ordem e pronto!
Parecia possível!
O D.G. – já se lhe adivinhava na face bojuda – iria publicitar a sua surpresa, a sua enorme, imensa, gigantesca, colossal surpresa, mas passaria em frente, evitando outras perdas do precioso tempo. Mais tarde, estou certo, chamaria o assessor a uma reprimenda privada.
Só que nem a surpresa se tornou em verbo! Para surpresa de todos, nesse mesmo instante, em simultâneo com o movimento que o erguia celeremente da cadeira de couro preto, o doutor Figueiredo anunciou:
«Então, agora, eu, eu Figueiredo, senhor doutor Figueiredo, vou fazer um belo de um strip-tease!» E já com um pé no couro, a servir de estribo ao balanço, deu-se em acrescentar: «ou, para todos, monsieurs e distintas damas, une belle déshabillage; vou-me pôr em pelota, tudo ao léu! E acrescento, meninas e meninos, enlevado público, Podeis ver integralmente o homem moderno! Ver e apreciar: os mais curiosos e as mais ousadas, podem dar ganas a todos os desejos, e tocar! Sou vosso...»
Não há literatura que aguente! Não sei, não faço ideia, não entendo como se poderia descrever o estado da sala. Os olhos que a arregalavam, as bocas que a enchiam, a saliva que descia pelas goelas com o mesmo inchaço da jibóia a engolir um boi. Quando o anúncio se estatelou nas quatro paredes, pesado e grosso, cheio de um som sísmico que vibrava ondas de arrepio, e nesse instante em que pairava no ar, pastoso em demasia para respirar, viscoso bastante para se apanhar à mão, uns chegaram-se atrás, apertando os braços das cadeiras até os nós se vincarem de dor e esticando os pescoços ao céu ausente de um teto em chamas, uns chegaram-se à frente, apertando na mesma, sofrendo a mesma dor de espera e outros, ainda, ficaram agachados por dentro, vendo-se o corpo a mirrar de encontro à mesa, os ombros a estertorar o esterno e um olhar ainda mais vago, nublando toda a vista, receosos de verem o que podia ser visto.
Tenho hoje a certeza, se refizesse o tempo, que teríamos contado até dez, sem que qualquer reacção, além do choque, tivesse sido exteriorizada. E dez não é pouco: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!
Só que, nesse contar, antes de um qualquer dez poder ser dito, Figueiredo, doutor Figueiredo, the streeper, doutor streeper, já galgara todo o corpo para cima da mesa; já arrebatara a gravata num gesto súbito, lançando com rapidez o indicador esquerdo num ápice, entre o nó e o botão do colarinho; já chutara um sapato preto (devidamente engraxado, mas sem atacadores: sintoma primeiro de uma rebeldia que se não acautelou…) para longe da sombra, sobrevoando o cabelo espigado do engenheiro Reboredo, e estava em acto desesperado de desapertar o cinto de marca.
O Director-Geral correu até à porta e saiu, o Adjunto seguiu-o até à porta e correu e o Coordenador – Técnico foi atrás deles, a gritar, Chamem a segurança!
Dentro da sala, cada vez mais enevoada com a tragédia, os primeiros gestos foram só vocais:
«Que disparate!»
«O que é isto?!»
«Estás doido?!»
«Está doido?!»
«Ó Figueiredo!»
«Ó doutor Figueiredo!»
«Figueeeiredoo…»
Disse, em última instância, a doutora Fernanda. A doutora Fernanda estava na quina direita, mesmo diante de mim. Corada, esbugalhada, com a cara em feitio de súplica. Por dentro, tenho a certeza, incrédula, incapaz, atónita, marasmada de todo.
Entretanto deram-se as primeiras reacções físicas, arrastando o envolvimento directo dos mais audazes. O doutor Libério enfiou-se pelo buraco do U, contornando todo o fundo da mesa, e chegava-se ao artista, erguendo os braços compridos e soletrando a ordem, S-A-L-T-A, salta daí! Ainda não alcançara o atleta e já o doutor Fernandes formava a segunda onda, como numa ola, S-A-I, sai daí!
A doutora Fernanda, bem eu a vi, levou o indicador à pouca testa que o negro cabelo engranpelhado deixava livre e apitou três vezes, como se quisesse insistir no aviso. Ao mesmo tempo, diminuindo a amplitude do olhar, encolheu os ombros estreitos, cobertos por uma blusa de linho leve, enfeitada, isso mais abaixo, com um rendilhado que imitava o logótipo da sociedade.
O Figueiredo tomou a palavra, pigarreou despercebidamente e avançou com a proposta de se passar ao último ponto, justamente Perspectivas futuras para a implementação acelerada da sociedade empresarial de comunicação. Falara antes dos quatro que se encontravam à sua esquerda e que, atenta essa mesma ordem, o deveriam anteceder no discurso. Daí, ainda assim, nada de mal ao mundo: a questão, aliás, afigurava-se mais processual que de substância.
Tudo bem. Só que, feita a sugestão, nada acrescentara a seu favor, nada dissera que a fundasse. Por instantes, a mudez inundou a sala oval onde, ao fundo, o fundador olhava displicente, e todos, todos e cada um por si, lhe concedemos um aforro de segundos.
Nada!
E o D.G. – olhos demasiadamente abertos, parecia nem estar por cá – disse: «E?»
E nada!
Com voz mais forte, ligeiramente regressado, acrescentou, «E, doutor Figueiredo de Sampaio?»
«E nada», respondeu o proponente. Assim inopinado, como quem diz, Altera-se a ordem e pronto!
Parecia possível!
O D.G. – já se lhe adivinhava na face bojuda – iria publicitar a sua surpresa, a sua enorme, imensa, gigantesca, colossal surpresa, mas passaria em frente, evitando outras perdas do precioso tempo. Mais tarde, estou certo, chamaria o assessor a uma reprimenda privada.
Só que nem a surpresa se tornou em verbo! Para surpresa de todos, nesse mesmo instante, em simultâneo com o movimento que o erguia celeremente da cadeira de couro preto, o doutor Figueiredo anunciou:
«Então, agora, eu, eu Figueiredo, senhor doutor Figueiredo, vou fazer um belo de um strip-tease!» E já com um pé no couro, a servir de estribo ao balanço, deu-se em acrescentar: «ou, para todos, monsieurs e distintas damas, une belle déshabillage; vou-me pôr em pelota, tudo ao léu! E acrescento, meninas e meninos, enlevado público, Podeis ver integralmente o homem moderno! Ver e apreciar: os mais curiosos e as mais ousadas, podem dar ganas a todos os desejos, e tocar! Sou vosso...»
Não há literatura que aguente! Não sei, não faço ideia, não entendo como se poderia descrever o estado da sala. Os olhos que a arregalavam, as bocas que a enchiam, a saliva que descia pelas goelas com o mesmo inchaço da jibóia a engolir um boi. Quando o anúncio se estatelou nas quatro paredes, pesado e grosso, cheio de um som sísmico que vibrava ondas de arrepio, e nesse instante em que pairava no ar, pastoso em demasia para respirar, viscoso bastante para se apanhar à mão, uns chegaram-se atrás, apertando os braços das cadeiras até os nós se vincarem de dor e esticando os pescoços ao céu ausente de um teto em chamas, uns chegaram-se à frente, apertando na mesma, sofrendo a mesma dor de espera e outros, ainda, ficaram agachados por dentro, vendo-se o corpo a mirrar de encontro à mesa, os ombros a estertorar o esterno e um olhar ainda mais vago, nublando toda a vista, receosos de verem o que podia ser visto.
Tenho hoje a certeza, se refizesse o tempo, que teríamos contado até dez, sem que qualquer reacção, além do choque, tivesse sido exteriorizada. E dez não é pouco: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!
Só que, nesse contar, antes de um qualquer dez poder ser dito, Figueiredo, doutor Figueiredo, the streeper, doutor streeper, já galgara todo o corpo para cima da mesa; já arrebatara a gravata num gesto súbito, lançando com rapidez o indicador esquerdo num ápice, entre o nó e o botão do colarinho; já chutara um sapato preto (devidamente engraxado, mas sem atacadores: sintoma primeiro de uma rebeldia que se não acautelou…) para longe da sombra, sobrevoando o cabelo espigado do engenheiro Reboredo, e estava em acto desesperado de desapertar o cinto de marca.
O Director-Geral correu até à porta e saiu, o Adjunto seguiu-o até à porta e correu e o Coordenador – Técnico foi atrás deles, a gritar, Chamem a segurança!
Dentro da sala, cada vez mais enevoada com a tragédia, os primeiros gestos foram só vocais:
«Que disparate!»
«O que é isto?!»
«Estás doido?!»
«Está doido?!»
«Ó Figueiredo!»
«Ó doutor Figueiredo!»
«Figueeeiredoo…»
Disse, em última instância, a doutora Fernanda. A doutora Fernanda estava na quina direita, mesmo diante de mim. Corada, esbugalhada, com a cara em feitio de súplica. Por dentro, tenho a certeza, incrédula, incapaz, atónita, marasmada de todo.
Entretanto deram-se as primeiras reacções físicas, arrastando o envolvimento directo dos mais audazes. O doutor Libério enfiou-se pelo buraco do U, contornando todo o fundo da mesa, e chegava-se ao artista, erguendo os braços compridos e soletrando a ordem, S-A-L-T-A, salta daí! Ainda não alcançara o atleta e já o doutor Fernandes formava a segunda onda, como numa ola, S-A-I, sai daí!
A doutora Fernanda, bem eu a vi, levou o indicador à pouca testa que o negro cabelo engranpelhado deixava livre e apitou três vezes, como se quisesse insistir no aviso. Ao mesmo tempo, diminuindo a amplitude do olhar, encolheu os ombros estreitos, cobertos por uma blusa de linho leve, enfeitada, isso mais abaixo, com um rendilhado que imitava o logótipo da sociedade.
(continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário